Somos todos Idiotas? – Final.

Consegui. Depois de um mês e meio terminei o último grande romance de Dostoievski que faltava para ler, após um último ano dedicado à leitura de suas principais obras (Neste período li Os Demônios, Irmãos Karamazov e Memórias do Subsolo também) finalmente posso dizer que conheço muito bem o velho Dostô, é claro que além de ter lido Noites Brancas e O jogador ainda falta O Duplo, Gente Pobre e suas obras menores mas também importantes e com temas que não encontramos em seus Quatro últimos romances.

Apesar de ter quase 700 páginas, O Idiota não é o maior livro de Dostoievski, perdendo para “Os Demônios”, também conhecido como Os Possessos. E Irmãos Karamazov que tem o mais de mil páginas. Mas O Idiota é de longe um dos meus livros favoritos. No post “Somos todos Idiotas”, falei sobre como cada livro novo que leio de Dostoievski parece ser o melhor livro que já li, a sensação que tenho é de estar lendo um livro bom pela primeira vez e como ele consegue descrever até uma cena horrível, como alguém sendo estrangulado, ou um ataque epilético de maneira brilhante. Essa sensação veio fortemente no livro, temos nele um personagem muito parecido com o  Aliócha dos Irmãos Karamazov, mas desta vez com uma exclusividade toda voltada para o lado humano do personagem, o lado puro, e ele não é um aprendiz de padre assim como Aliócha, ele simplesmente é bom pela sua natureza. Até mesmo Rogójin, antagonista e principal rival de Michkin, aparece poucas vezes, como se sua presença não fosse necessária. O livro é totalmente voltado ao príncipe Michkin, que coitado, por causa da sua condição é sempre chamado de Idiota (ele era epilético). Aliás, corrijo, em O Idiota todos são antagonistas do jovem príncipe Michkin, difícil encontrar um personagem que não tente humilhar ele em algum momento, que talvez, por pura e sádica diversão, não tente ver até onde a infinita paciência de nosso herói é capaz de chegar, e colocando a toda hora em teste se o príncipe é realmente um homem “Bom” como Jesus/Dom Quixote.

(Imagem de Cristo que serviu de inspiração para Dostoievski enquanto escrevia o livro).
Engraçado notar que várias vezes os personagens do livro ficam surpreendidos com o intelecto do Príncipe, logo no inicio ele surpreendeu ao General por saber tão bem de caligrafia, por ter uma letra boa, por conhecer tão bem política e escritores, coisas do tipo. Diversas vezes é citado se o príncipe é realmente alguém capaz de perdoar seus inimigos ou amigos, inclusive é apontado algumas vezes que por ele ser “idiota” ou “doente” ele sinta necessidade de perdoar seus amigos. Em determinado momento, ao tomar uma bofetada de Gánia (personagem que tem o mesmo interesse romântico do príncipe e que por vezes o detesta), este é capaz ainda de o perdoar e depois ainda de o abraçar e chorar junto com ele, vendo que este se arrependeu de verdade. Diversas vezes também perdoou o velho Liebediev, um bêbado que bajula quem tem dinheiro, por coisas que qualquer outro ser teria dificuldade extrema de sequer pensar no assunto. O príncipe mesmo não amando, quis se casar com Nastácia por pena, mas não uma pena que sentimos por qualquer mendigo que encontramos em todas as pessoas nos dias de hoje, a pena do príncipe no caso foi a de tentar ser o melhor homem para uma mulher incrível, sinceramente, nenhum homem nunca seria bons o bastante para ela, todos seriam ciumentos demais (pela sua beleza), duros demais, ninguém entederia ela.

O final do livro (atenção, fiel leitor, contém spoilers on!), muito, muito triste,
temos Aglia (o verdadeiro amor do príncipe, e que se fosse qualquer autor comum teria casado os dois no final) se casando com um falsário, após o príncipe ter hesitado por alguns momentos em a acompanhar porta a fora da casa após uma briga com Nastácia Fillipovna. O príncipe sendo internado novamente por causa de sua doença (epilepsia) Rogójin (adivinhe) sendo mandado a Sibéria por um crime… Concordo que o final foi original, não pela morte da louca (Nastácia), isso mesmo foi indicado em algumas partes do livro que iria acabar acontecendo (Rogojin mesmo disse que poderia matá-la ao príncipe e ela preveniu isso), mas sim pela reação do príncipe, atônito, ainda tentar conversar com o Rogojin, tentar manter a calma mas ao mesmo tempo delirar… também é original o final, com ele voltando a se curar na suíça e mal reconhecendo seus parentes. É triste, muito triste, mas como diz Dostoievski “para viver precisamos sofrer, sofrer SOFRER!!!”. Não sei porque esse final me lembrou um pouco o final de Batman, a Piada Mortal, outra critica mais voltada na riqueza do texto aqui. História escrita por Alan Moore sobre o relacionamento entre Batman e Coringa que terminou com a Batgirl aleijada, um comissário Gordon quase insano e o Coringa contando uma piada ao Batman, e os dois juntos gargalhando no final, um marco dos quadrinhos.

Dostoievski debate nesse livro diversos temas que sou a favor, usando os personagens para passar opiniões e debater alguns assuntos da época que são atuais até hoje, como igualdade dos sexos, por exemplo a personagem Aglaia, filha do General, é muito forte e enfrenta diversas vezes seus pais, tendo uma força quase sobrenatural para controlar sua vontade contra a de seu pai, me lembrou uma personagem, sem nome, de Os demônios, que além de socialista era também uma feminista, isso naquela época. Ateísmo, um outro tema muito comum nos livros de Dostoievski. Pena de morte que eu falarei em especial deste tema abaixo, preconceito em geral da sociedade, com Judeus e pessoas com deficiência, um exemplo é preconceito impera o livro todo com o personagem central Michkin – o príncipe- por ser epilético e todos se referem com nojo a sua doença. Dostoievski mesmo era epilético e teve em seus livros alguns outros personagens com a mesma doença. Entre eles Smierdikov, de Irmãos Karamazov.
Apesar de ter preconceitos (chamava os Judeus de Jids, apelidos depreciativos que eram usados neles naquela época), Dostoievski era humanista, no filme “Demônios de São Petersburgo” a preocupação dele com os temas da época e com os jovens socialistas que serviram de inspiração para os livros “os demônios”, no filme também explica o inicio do relacionamento dele com sua segunda mulher, a estenografa Anna Grigorievna, que escreveu uma biografia sobre seu marido, intitulado “Meu Marido Dostoievski”, na qual relata experiências com marido além de correspondências.

Não sei dizer exatamente o porque resolvi escrever novamente sobre o livro ou o porque do titulo, eu queria fazer um bom texto dessa vez, com mais pesquisa, nada corrido, queria apontar vários pontos usando o livro do tio Dostô como partida. Sobre como na minha opinião, todos no livro O idiota são idiotas, imbecis, com exceção do príncipe. É tudo isso que eu vejo hoje em dia, a sociedade não está caindo aos pedaços, ela já estava aos pedaços naquela época. Ela já nasceu fodida, essa é a verdade. Vivemos em um mundo de tanto preconceito, tanta banalidade que eu realmente fico surpreso com a maioria das reações dos humanos quanto aos assuntos mais mundanos. Porque todo mundo finge que se importa só para cuidar da minha vida?  O que tem haver decisões das pessoas que só querem viver suas próprias vidas? Para o príncipe, nada tem a ver. Ele só se importa se você sofre. E ver alguém sofrendo para ele é a pior dor do mundo. De alguma maneira ele precisa ajudar, não importa como. É um mundo frio esse em qual vivemos hoje, temos cada vez mais psicopatas, penso nisso sempre e o filme “onde os fracos não tem vez” vem em minha mente. Os mundos são outros, mas acho que não seria diferente na época de Dostoievski, Rogojin, personagem assassino, considero um grande psicopata. Sabia que ia matar, mas mesmo assim, não mudou sua atitude em nenhuma outra oportunidade, acho que se você sabe que vai fazer algo errado, como matar alguém,  e ainda o fizer, não evitando ao máximo isso, então você é um grande psicopata, mas as pessoas insistem em cometer o mesmo erro repetidas vezes. Até ratos aprendem o caminho correto para sair do esgoto, porque a gente não consegue?

Há uma característica no livro, a personagem de Nastácia, que foi criada por um benfeitor, que conhecia seus pais dos quais morreram quando ela era criança, e aprendeu a ser uma dama de alta sociedade e ser casada com um homem rico, instruída e muito inteligente, seu destino estaria selado, mas Nastácia toma uma decisão e  logo deixa todos os bens materiais e abre mão de todas os noivos ricos que tentam a sorte com ela, se libertando de bens materiais. Em Crime e Castigo, o jovem Roskolnikov mata a velha e rouba suas jóias, mas nem sequer pensa em vender ou conseguir algum dinheiro com elas, ele comete o crime apenas para enganar os policias e fazer pensar que se tratava de algum assalto. Aliócha também abre mão dos bens materiais para viver em um mosteiro, essa atitude anticapitalista está presente em quase todos os livros do velho Dostô e serve para termos uma idéia do que ele pensa dos bens materiais, essa sinceramente não é minha área, mas tem toda uma analise do ponto de vista econômico nos livros do escritor por essa parte e que merecem um texto totalmente dedicado a isso, senti a necessidade de apensar citar brevemente estas observações quanto ao livro.

Também há a necessidade de citar uma das frases mais conhecidas do velho escritor, usada por meio do Príncipe Michkin, acho que vou deixar um texto apenas para analisar ela toda, a seguinte frase é “A beleza salvará o mundo”. Profético, temos que observar que a concepção de beleza que temos hoje é completamente diferente da concepção de beleza que temos em 1800 e bolinha. Hoje, ler estas partes, não vale a pena analisar que hoje beleza está ligada a padrões, padrões que muitos tentam seguir nos dias de hoje. Antigamente a beleza tinha outro significado, era o belo da arte, da escrita, enfim, das expressões em geral. Hipollit, jovem doente que aparece com um certo destaque no romance O Idiota diz sobre a frase do príncipe Michkin:

 “É verdade que o príncipe disse, uma vez, que a ‘beleza’ salvaria o mundo? Meus senhores – gritou bem alto –, o príncipe afirma que a beleza salvará o mundo! E eu afirmo que quem tem idéias tão jocosas está apaixonado. Meus senhores, o príncipe está apaixonado; mal ele entrou tive a certeza disso. Não core, príncipe, senão ainda tenho pena de si. Que beleza salvará o mundo? Foi o Kólia quem me contou… É um cristão zeloso? O Kólia diz que o príncipe se qualifica a si mesmo de cristão…” ·
Um dos temas recorrentes e presentes em alguns discursos do príncipe, foi sobre uma execução que assistiu na suíça (na Rússia naquela época não existia pena de morte, como explica as perfeitas notas que dão uma aula de história para qualquer leitor, parabéns ao editor do livro!), e que na qual ele tirou a conclusão que não existe nada pior que o sentimento de quem sabe que está preste a morrer. Que mesmo o pior dos homens sofre não mais pela morte, mas pelo sentimento de que está preste a morrer em algum instante.
A questão em defesa da pena de morte marca muito bem o livro e gosto muito do ponto de vista adotado pelo príncipe. A maior curiosidade é que também o próprio Dostoievski passou por uma situação parecida, e quase foi executado. A historia foi que quando após publicar seu primeiro livro Dostoievski começou a participar de um circulo de socialistas, naquela época o Czar ainda mandava em todos com mãos de ferro, muita gente principalmente da camada pobre aderiu aos círculos socialistas, com a Revolução na França (de 1778 a 1779), as medidas que Czar adotou para combater os grupos socialistas que naquela época praticavam atos considerados como terrorismo nos dias de hoje era acabar com isso de uma maneira fácil e rápida a pedido dos generais, os jovens “pensadores” eram fuzilados e serviam de exemplo. Bom, acontece que isso também ocorreu com Disto e seus companheiros artistas. Eles foram capturados e a sentença de morte deles foi anunciada, mas minutos antes de ser fuzilado uma carta chegou ao comandante dizendo que o escritor e seus colegas do circulo socialista seriam poupados e enviados a Sibéria, aonde viveria com assassinos e prisioneiros políticos, interessante ressaltar que antigamente, na Rússia, era comum qualquer criminoso ser enviado para Sibéria, lá era a prisão perfeita e a morte era quase certa, as cadeias não tinham parede, porque, bom, você não vai a um lugar muito longe quando você está isolado no meio de um deserto de gelo e não tem recursos para fugir a pé, né? Depois foi enviado para anos servindo como soldado para Rússia. Esses minutos antes da “morte certa” perseguiram nosso escritor por anos, até sua morte. Em cartas ao seu irmão ele relata a experiência como sendo terrível, segue a carta abaixo:

“Hoje, 22 de dezembro, fomos levados à praça de armas do regimento Semeónovski. Ali foi lida para todos nós a sentença de morte, deram-nos a cruz para beijar… e prepararam nossos trajes para a morte (camisões brancos). Em seguida prenderam três aos postes para a execução da sentença. Chamavam de três em três, portanto eu estava na segunda fila e não me restava mais de um minuto de vida. Eu me lembrei de ti, meu irmão, de todos nós três; no último minuto tu, só tu estavas em minha mente, e só então fiquei sabendo como te amo, meu irmão querido! Tive tempo de abraçar também Pleschêiev, Dúrov, que estavam ao lado, e despedir-me deles. Por fim bateu o sinal, fizeram voltar os que estavam presos aos postes, e leram para nós que sua majestade imperial nos dava a vida. Depois as verdadeiras sentenças tiveram prosseguimento…Irmão! Não me abati e nem caí em desânimo. A vida é vida em qualquer lugar, a vida está em nós mesmos e não fora. Ao meu lado haverá pessoas, e ser homem entre elas e assim permanecer para sempre, quaisquer que sejam os infortúnios, sem perder a coragem nem cair em desânimo ² eis em que consiste a vida, em que consiste o seu objetivo. Eu estava consciente disso. Essa idéia arraigou-se em mim. Sim! É verdade! Aquela cabeça que criava, que vivia a vida suprema da arte, que era consciente e habituara-se às demandas superiores do espírito, aquela cabeça já havia sido cortada do meu pescoço. Restaram a memória e as imagens criadas e ainda não concretizadas por mim. Elas haverão de me ulcerar, é verdade! Mas em mim restaram o coração e aqueles sangues e carne que podem amar, e sofrer, e compadecer-se, e lembrar-se, e isso é vida apesar de tudo”.

On voit le soleil

Bem, irmão, adeus! Não te aflijas por mim!… Nunca na vida reservas tão abundantes e sadias de vida espiritual haviam fervido em mim como neste momento. Mas se o corpo vai agüentar eu não sei…Meu Deus! Quantas imagens, sobreviventes, criadas por mim irão morrer, irão apagar-se em minha cabeça ou derramar-se em meu sangue como veneno! É, se não puder escrever eu vou morrer… Em minha alma não há fel nem raiva, gostaria de amar muito e abraçar ao menos alguma das pessoas de antes neste momento. Isso é um deleite, eu o experimentei hoje ao me despedir dos meus entes queridos perante a morte… Quando olho para o passado e compreendo quanto tempo perdi em vão, quanto perdi com equívocos, com erros, na ociosidade, na inabilidade para viver, como deixei de apreciá-lo, quantas vezes pequei contra meu coração e minha alma, meu coração se põe a sangrar. A vida é uma dádiva, a vida é uma felicidade, cada minuto poderia ser uma eternidade de felicidade ““.

Porém o que ele nunca descobriu, e que só foi revelado por meio de documentos depois de sua morte foi que os oficiais nunca pretenderam executar Dostoievski e seus amigos, aparentemente eles eram mais importantes vivos. Ponto alto para quem teve essa idéia de montar todo um teatro para ensinar uma lição aos estudantes, sem isso, não teríamos livros como os irmãos Karamazov ou o idiota, e provavelmente caras como Kafka, Poe, Nietzsche e Freud não teriam se inspirado nessas obras para produzir suas obras mais complexas.

 

A imagem que ilustra o topo do post é do filme “O Idiota” do Kurosawa, que faz uma adaptação do Romance, como ainda não vi o filme, não pude falar nada no post inteiro, desculpe amigos.

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Uma resposta to “Somos todos Idiotas? – Final.”

  1. Ariana Mendonça Says:

    Nasceu um filho! o/ Achei que o texto ficou bem completo e muito bem escrito. Adorei essa foto de Onde os fracos não tem vez. Ouvi falar que o Kurosawa é um ótimo diretor, mas nunca vi nada dele.

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