Um exemplo de como o vira latismo não é algo exclusivo dos brasileiros.

Dostoyevsky_in_prisonComplexo de vira-lata é a expressão criada por Nelson Rodrigues, utilizada para descrever o pessoal que inferioriza nosso país e que sonha em ir até Miami comprar Iphone e Playstation quatro. Mas o que temos de saber é que esse complexo não é algo restrito aos brasileiros, como podemos ver em uma matéria recente no site UOL,  onde gringos que estão no país por causa da copa apontam que nossos defeitos não são únicos, existe tanto transito aqui quanto em Londres ou em Tóquio, por exemplo.

Em 1867, Turgueniev publicava o livro “Fumaças”, aonde criticava fortemente seu país de origem, a Rússia. Segundo Turgeniev, os Russos não tinham nada de original, como cita no livro por meio do protagonista “o samovar, os sapatos de entrecasca de madeira, o bridão e o chicote – são esses nossos produtos mais famosos – não foram inventados por nós”, há também outra citação, ainda mais polemica e na qual Turgueniev diz ser a frase que resume seu livro, quando o personagem principal diz que “se a Rússia desaparecesse de repente da face da terra, com tudo que ela criou, não tiraria do lugar uma única unha do planeta terra”.  Esse tipo de descrição era muito comum do Turgeniev. Na juventude, quando era amigo de Dostoievski, disse que o autor era a “espinha no nariz da literatura Russa”, isso porque ambos haviam ficado amigos por causa do circulo de literatura, arte e politica que se encontravam na casa do critico Belinski. Tudo porque Dostoievski, que viera em sua época foi um dos poucos escritores provenientes de família pobre, conseguiu alavancar um sucesso tremendo com seu romance de estreia, “Pobre Gente”, que foi muito bem criticado por Belinski, uma espécie de guru literário da época.

Turgueniev

Turgueniev

O tempo passou, e a amizade dos dois voltou a ficar forte, principalmente depois que Fiodor passou anos na Sibéria preso e voltou à Rússia, aonde mesmo sem ter muito dinheiro fundou com seu irmão à revista literária “O tempo”. Dostoievski pediu então uma colaboração de Turgeniev que atendeu o seu chamado, infelizmente, a revista O tempo foi fechada pela censura imposta pelo Czar.

Dostoievski então guardou o texto de Turgeniev e meses depois o lançou em uma revista chamada “Época”.

O tempo passou e Dostoievski perdeu sua esposa e seu irmão, o que deixou diversas despesas para o escritor, pois além de sustentar o filho de sua esposa também sustentou a família de seu irmão. Com as dividas da revista e tendo que fazer o trabalho editorial sozinho, não restou alternativa senão fechar a revista.

Assim, seu único método de sustento era escrever. E Dostoievski escreveu. Com diversos problemas econômicos, se esforçou para entregar “O Jogador” para um editor de livros, o prazo quando começou a escrever era de um mês. Ao mesmo tempo, escreveu “Crime e Castigo”. Com o tempo correndo, foi necessário contratar uma estenografa, foi ai que conheceu Anna, sua futura esposa.

Quando fugiu da Rússia devido à quantidade cada vez maior de credores e dividas que estava obrigado a pagar, viajou pela Europa, em países como Itália e Alemanha.

Foi neste cenário, que reencontrou Turgueniev em Baden Baden, o autor de Pais e Filhos estava recebendo diversas criticas negativas na Rússia, inclusive de amigos próximos, por ter escrito A Fumaça e também pelo romance Pais e Filhos, e Dostoievski estava mais miserável do que nunca, pois contraiu um vicio em jogos, gastando assim todo dinheiro que ganhava e penhorando bens de sua família, sua esposa estava grávida e o casal era tão pobre neste período que conseguiram apenas alugar um apartamento pequeno que ficava em cima de um ferreiro que começava a trabalhar às cinco horas da manhã.

Após ter sido avistado por Turgueniev, Dostoievski decidiu visitar o amigo, até porque ele devia ao escritor 50 rublos e queria negociar o pagamento.

Em contrapartida ao complexo de vira lata que sofria Turgueniev, Dostoievski amava e muito a Rússia, o futuro autor de Irmãos Karamazov odiava ter de passar tanto tempo longe do país. Em seu tempo na prisão amadureceu o sentimento de patriotismo, e nesta época Dostoievski já previa que a Rússia iria dominar o mundo, pretendia voltar o quanto antes para seu país natal, pois não queria criar seu futuro filho “longe dos costumes russos”.

Deste encontro entre os dois, saíram duas versões. A primeira contada no diário de Ana, na mesma noite em que Dostoievski voltou de seu encontro com Turgueniev, e a segunda versão na qual Dostoievski este encontro ao seu amigo e poeta Apolon Maikov.

No diário de Ana, há uma versão muito mais amena que a da carta destinada a Maikov. Em seu diário, Ana conta que o encontro entre os dois escritores teve um resultado muito mais ameno que o normal, talvez Dostoievski tenha sido mais leve ao descrever os fatos. Uma alternativa levantada pelo biografo de Dostoievski, Joseph Frank, seria a de que essa declaração teria a ver com a situação econômica desesperadora que vivia o casal.  Outra observação da mesma era a de que Dostoievski, ao chegar com algum dinheiro ganhado da roleta, seria importante, pois não seria necessário procurar Turgeniev para pedir emprestado algum dinheiro, segundo Joseph Frank, essa observação seria importante, pois mostra que Ana ainda tinha esperanças para a possibilidade de apelar para Turgueniev caso o casal ficasse sem dinheiro.

Mas como briga com final ameno não tem graça, vamos à versão escrita por Dostoievski, portanto feito pelos punhos de quem presenciou os fatos, na qual o encontro dos dois escritores terminou de maneira dura e amarga.

Mais detalhada que o diário de Ana, a carta de Dostoievski começa com “Vou lhe dizer com franqueza: mesmo antes disso [a visita obrigatória] eu não gostava do homem pessoalmente”. O sentimento envolvendo Turgueniev se agravou, por não conseguir pagar o empréstimo que tomou, para piorar, Dostoievski se queixa do comprimento aristocrático do poeta, dizendo que ele tem “ares horríveis de um general”.

Para se ter uma ideia, o desgosto de Dostoievski pelos métodos aristocráticos de Turgueniev cresceu de tal maneira, que o escritor criou um personagem no livro “Os Demônios”, chamado Karmazinov, aonde a descrição batia com os métodos de Ivan.

Ainda no inicio, Dostoievski diz que “o livro fumaça me irritava”.

Apesar de querer evitar o assunto, Turgueniev empurrou a conversa para falar sobre A fumaça, segundo o diário de Ana, “falou o tempo todo de seu novo romance, Fiodór nem sequer chegou a mencioná-lo”, já no meio da conversa, Turgueniev diz que “a principal tese do livro, estava na fala do personagem principal Potúguin ‘se a Rússia desaparecesse, não havia qualquer perda ou agitação na humanidade”. Apontando logo em seguida a reação negativa que seu livro despertou.

Dostoievski, diz na carta a Maikov, repetindo sua primeira linha “Eu não sabia, que ele fora atacado e em um clube em Moscou, acho, as pessoas estavam coletando assinaturas para protestas contra o seu Fumaça. Confesso a você que eu nunca teria imaginado que alguém pudesse expor suas feridas à sua vaidade com tanta ingenuidade e inabilidade como faz Turgueniev”.

Após expor as criticas negativas de seu livro na Rússia, a conversa foi para o lado dos debates culturais envolvendo os ocidentalistas e os esváfilos, segundo Dostoievski, em sua carta a Maikov: “Ele criticou a Rússia e os russos de forma monstruosa, horrível…” Ele cita logo depois “Turgueniev nos disse que devamos nos arrastar diante dos alemães e que todas as tentativas de russidade e de independência são uma bestialidade e uma estupidez”, logo após, observou que “estava escrevendo um longo artigo contra os russófilos e os eslavófilos” foi quando Dostoievski fez a réplica mais citada entre esta discussão entre os dois, o escritor de crime e castigo disse: “Aconselhei-o, por conveniência a mandar vir um telescópio de Paris. ‘Para quê? ’ perguntou. ‘É longe daqui’, respondi. ‘Focalize seu telescópio na Rússia e nos examine, porque de outra maneira é difícil nos entender’”. Com essa resposta, Dostoievski expos que o exilio auto-imposto de Turgueniev o afastou da realidade russa e na qual seu talento havia se perdido com esse afastamento.  Com o sarcasmo de Dostoievski, Turgueniev ficou zangado, por outro lado, Dostoievski tentou diminuir o stress da conversa de ambos, dizendo “Mas eu realmente não esperava toda essa critica a você e ao fracasso de fumaça, o irritasse tanto; por Deus, não vale a pena, esqueça tudo isso”.  Em resposta, teve a fala: “mas eu não estou irritado de jeito nenhum. O que você quer dizer?”, fez com que Dostoievski mudasse de assunto, aonde finalmente pegou o chapéu para sair, mas antes de partir, não se conteve, e “por algum motivo, absolutamente sem intenção, disse o que em três meses eu vinha acumulado em minha alma sobre os alemães”.  No diário de sua esposa, Ana, sabemos que o escritor de Os Demônios, vinha acumulando um ódio com os modos dos alemães sem poder descarregar a ninguém, no final, explodiu a uma crítica aos alemães os chamando de “patifes, escroques, muito piores e desonestos do que nós (os russos)”. Comentou, aproveitando as questões socioculturais que debatiam: “Você está aqui falando da civilização, pois bem, o que a civilização fez para os alemães e como eles podem vangloriar-se de ser muito superiores a nós?”, as palavras de Dostoievski fez com que Turgueniev ficasse pálido, na qual disse: “Falando assim você me ofende pessoalmente. Você sabia que eu me estabeleci aqui permanentemente, que me considero um alemão, e não um russo, e tenho orgulho disso!” Assim, Dostoievski disse que embora tenha lido a fumaça, não espera que Turgieniev dissesse isso, assim, se desculpou e saiu de casa. No dia seguinte, apesar de ter sido avistado no dia seguinte pelo escritor, recebeu um cartão do mesmo.

A descrição dessa discussão envolvendo estes dois escritores, repercutiu o mundo da literatura Russa, por envolver dois dos maiores escritores de todos os tempos, ainda hoje, se torna atual, reflete em muito o complexo de vira-lata, pois os sentimentos, o argumento de Turgueniev se encaixa perfeitamente aos dias atuais, da mesma maneira em que Dostoievski se tornou um patriota intenso pela Rússia, escrevendo cartas ao Czar, dizendo o quanto amava a pátria, de dois ex-conspiradores de esquerda, se tornaram no meio de sua vida em bonachões defendendo ideias fúteis, e a isso meus amigos, não existe maior arrependimento.

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