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A aldeia de Stepántchikovo e seus habitantes

novembro 6, 2014

 

Quem acompanha meu blog, sabe que um dos meus escritores favoritos é o Dostoiévski, alguns de meus textos favoritos foram sobre suas obras ou sobre a vida e comportamento do escritor. O último texto, por exemplo, era sobre uma briga épica da literatura mundial, protagonizada por Fiodor e Turgueniev, comparando o viralatismo de Turgueniev com o complexo de vira latas que muitos de nós brasileiros sentimos em relação ao nosso país. Você pode ler o texto aqui.

Um texto aonde linko todos os outros com criticas sobre os livros do autor pode ser encontrado aqui.

Fiz uma promessa no inicio do ano de comentar e criticar quadrinhos e livros que li, infelizmente, não consegui ler tanto quanto queria, quanto mais parar para escrever sobre estes livros e quadrinhos.

Ganhei a A aldeia de Stepántchikovo e seus habitantes tem algum tempo da minha esposa, porém além de demorar para começar a ler é complicado escrever sobre um livro do Dostoiévski, principalmente quando eu tenho o costume de sempre ler sobre o escritor e sobre suas obras, e o pior de tudo é quando tenho obras biográficas do autor, entre elas a rica biografia do Joseph Frank, que além de falar sobre a vida do Dostô, ainda aborda a politica da época  e critica os livros do autor. Para se ter uma ideia, apenas para explicar a discussão entre Turguêniev e Dostoiévski, o autor gastou dezenas e dezenas de páginas explicando os motivos, criticando livros do Turguê, comparando criticas de outros autores com as do próprio Dostô, além de traçar uma biografia deste rival do Dostoiévski.

Pois bem, primeiro, assim como quase todos os outros livros que escrevi sobre Dostô, a Aldeia (vamos abreviar aqui porque o nome é longo), nesta versão que eu li, é da Editora 34. A editora tem feito um ótimo trabalho em publicar textos russos de autores consagrados como este escritor que falo sobre, também sobre Tolstoi, Pushkin, Gogól, entre outros, assim como novos autores, por exemplo, da “Nova Antologia do conto Russo”, aonde traz diversos contos de autores consagrados na literatura Russa, como novos autores, até a data de 1998.

Todos os livros que li da editora 34 tem excelentes trabalhos de ilustradores e artistas plásticos, trabalhos com xilogravura ou até gravura, e no caso de A Aldeia não é diferente, todos que eu li, envolviam ilustrações de excelentes artistas brasileiros ou naturalizados no Brasil, alguns que fizeram o trabalho inspirado em passagens de livros do Dostô, ano passado ou retrasado, visitei na caixa cultural uma exposição de Oswaldo Goeldi, aonde estava exposto as séries de desenhos, gravuras, xilogravuras, etc, do autor, sobre livros do Dostoievski, para conferir as obras do mesmo, acesse aqui.

Nesta edição de a Aldeia, o ilustrador é um veterano, Darel Valença Lins, excelente artista nascido em 1924, confiram a página do Wikipedia dele aqui.

Gostei muito da tradução de Lucas Simone, que também organizou a edição da Nova Antologia do conto Russo, formado em história na USP, é professor da lingua Russa. Jovem, é um folego para os tradutores de livros Russos, tendo em vista que pelas outras edições da Editora 34, temos os excelentes e veteranos tradutores Paulo Bezerra (74 anos), e Boris Schnaiderman (97 anos), além de outros tradutores. Com toda certeza eu não teria começado a ler Dostoiévski sem a maneira brilhante em que eles conseguem expressar e traduzir as expressões e o estilo de narrativa deste autor, para se ter uma ideia, mesmo vários dos livros antigos, antes da Editora 34 começar a publicar autores Russos no mercado, traduziam textos Russos do Inglês, ou seja, era a tradução da tradução.

Enfim, finalmente li a Aldeia, e a primeira coisa que tenho de falar é: gostei muito do livro.

Escrito em 1859, é conhecido como um dos romances siberianos de Dostoiévski, porque foi concebido quando ele ainda era exilado na Sibéria, logo depois que saiu da prisão, para quem não sabe Dostô foi preso e além de ficar um tempo na cadeia depois foi obrigado a trabalhar para o exercito Russo, legalmente ele era proibido de voltar a Rússia, isso aconteceu depois de muito esforço que ele fez, como cartas para generais e para o próprio Czar da época. O fato é que ele foi impedido de escrever no tempo em que ficou preso, e quando viu que contemporâneos que foram presos pelo mesmo motivo estavam publicando textos em revistas e livros, decidiu voltar a ativa.

Pediu para seu irmão que estava na Rússia publicar um texto que ele escreveu quando ainda era preso politico antes de seu julgamento. Sem assinatura do autor, que temia ainda a censura e ser repreendido por escrever, além de ser espionado pela polícia Russa, o texto passou batido na sociedade. Quando publicou de seu primeiro livro, na juventude, Fiodor fez muito sucesso, e ele esperava o mesmo sucesso com o seu retorno literário, porém, as perspectivas eram outras, ele era jovem quando publicou seu primeiro romance, agora era casado, recebia um salário muito baixo, e precisava produzir algo as pressas, então é neste cenário que ele publica o Sonho do Tio, livro que teve uma reação muito inexpressiva na entre os leitores e no qual ninguém comentou. Porém assim ele finalmente recebia um salário digno, com isso trabalhou com maior calma e intensa dedicação, em meio a diversas crises de epilepsia conseguiu parir a Aldeia. E é engraçado que Dostô realmente tinha grandes perspectivas com esse romance, pois ele achava que seria levantado aos céus novamente como com o seu primeiro livr, porém Belinski, principal critico responsável por dar aquele hype no inicio de carreira do autor estava morto, e antes de morrer fez questão de anunciar que havia se enganado quanto o talento do escritor.

A Aldeia teve muita dificuldade para ser publicada, além de ter editores que enrolaram para decidir se iriam colocar em suas revistas ou não, um deles que havia dado um adiantamento para o escritor pediu o dinheiro de volta, pois não gostou do resultado, depois de alguns meses ele finalmente foi publicado em uma revista, e a critica foi muito forte quanto a história, pois além de criticar contemporâneos que eram excelentes escritores, além de satirizar Gogól na figura de Formá Formitch, ainda foi criticado por seus principais aliados, o setor progressista que tentava libertar os servos, para se ter uma ideia, Formá Formitch que era uma espécie de bufão (termo que pode ser comparado a bobo da corte), tentava ensinar no livro conceitos de literatura, astronomia e ciências aos servos. Da maneira que fica exposto, pode abrir uma margem de erro de interpretação ao setor mais progressista da sociedade Russa que Dostoievski estava satirizando a burrice dos Servos, quando estava mais para satirizar o tipo ridículo do intelectual na época, que vemos até nos dias de hoje, aonde tenta ensinar algo para pessoas que não tem o minimo interesse.

Enfim, apesar de não ser o narrador, Formá é o principal personagem do livro, isso pode não ficar muito exposto, mas a maneira que é criado o personagem, de forma brilhante, fez com que “Formá” se torna-se uma designação para bufão, bobo da corte, palhaço, entre outras, na Rússia e é utilizado até nos dias de hoje para designar esse tipo  de gente, mas para entender melhor, deixe-me explicar:

A primeira parte do livro, demasiada extensa, contém o narrador, sobrinho de um Coronel que é dono da Aldeia, contando que recebeu uma carta de seu tio, ele narra todo o drama psicológico de seu tio, da mãe de seu tio, do ex-marido de sua tia avó, contando basicamente que seu tio era um ser que não conseguia colocar a culpa nos outros, que era ignorante em temas de ciência e cultura, que qualquer um poderia facilmente subir nas costas dele. Quanto a sua tia-vó, logo de inicio é mostrado o desprezo que o narrador sente pela velha, e não é por exagero: casada com um General, que no inicio do livro já era falecido, a velha se muda para a casa do tio da narrador, levando todos seus animais, criadas, etc. Tirana, egoísta, exagerada, vê em Formá Formitch uma espécie de amor platônico, Formá, era criado do General, e sofria na mão do velho, como sofreu a vida toda. Acadêmico e culto, além de ter publicado textos, nunca conseguiu dinheiro por não ter origem nobre, acaba se tornando uma espécie de monge para a Generala quando o velho morre. Fazia previsões do futuro, dava verdadeiros exemplos de sua cultura, entre outros, consegue se instalar na casa do Coronel de maneira na qual, acaba subindo nas costas dele.

Nesta carta o narrador descobre o desespero de seu tio, que está tentando ludibriar que seu sobrinho se case com a governanta de sua casa, o sobrinho detecta que tem algo de estranho no texto e no caminho para a Aldeia, conforme se encontra com pessoas que vinham de lá, aos poucos vai descobrindo as histórias de Formá.

O livro se torna muito interessante e encantador quando o narrador chega na Aldeia e se depara com as figuras pitorescas. Vale observar que nas quase 400 páginas, Dostoiévski construiu personagens dinâmicos, únicos até então na literatura. E fica evidente sua qualidade na narrativa quando consegue desenvolver em um curto espaço de tempo todas as ações e toda a humanidade de seus personagens, e essa característica é inegável pois estará em outros de seus maiores romances.

Quanto as criticas que ele recebeu, vale observar que ele estava fora do cenário social da Rússia, ele apareceu com um livro cômico quando a Rússia estava lidando com questões séries como a liberação dos servos, mesmo com o livro considerado uma comédia, dá para perceber nos diálogos e nas histórias dos personagens um pouco do sufoco que o autor passava, além das crises epiléticas e da depressão profunda que ele sofria. Não foi bem recebido pela critica, principalmente porque alguns dos escritores e donos de publicações da época foram parodiados no livro.

Enfim, desta vez não tive aquela sensação que descrevi antes, que a cada livro deste autor que leio tenho a impressão de ser o melhor livro que li na vida, mas recomendo a todos que querem conhecer os dois lados do autor (antes de ser preso, e depois de ser preso), e acompanhar com leituras como Pobre Gente e O Idiota, e perceber como prisões, crises de epilepsia, mortes de entes queridos, dívidas excessivas, podem ajudar a moldar um dos maiores escritores de todos os tempos.

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Zine XXX

julho 9, 2014

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Faz quase um ano que o Zine XXX foi anunciado na plataforma catarse, um site aonde podemos cadastrar projetos para receber colaboração, e com isso, viabilizar projetos que não teriam êxito comercial.

Assim, documentários, livros e quadrinhos estão aparecendo no Catarse, eu apoiei um projeto do Mutarelli que teve sucesso e ultrapassou expectativas. O mesmo ocorreu com o Zine XXX, que precisava de 11.000 Reais para viabilizar o projeto. Diferente do Mutarelli, o Zine XXX era feito por diversas artistas mulheres, o que é ótimo. O projeto foi um sucesso e ultrapassou a quantidade que foi pedida, chegando a ultrapassar vinte mil reais.
Com isso o zine ganhou impressões em inglês para ser vendido lá fora, além de maiores brindes para quem comprou o mesmo.

O Zine foi editado pelo Librecoletivo, pela batuta de Beatriz Lopes e Coeditado por Diego Sanchez, a impressão e a qualidade do material está ótima, ficou muito acima dos Zines que encontramos por aí. A organização também estava ótima, com nomes das quadrinistas que participaram no projeto de cada zine ao final, com as páginas aonde podemos encontrar o trabalho de cada uma ao lado do nome.

Seguindo o tipo de padrão de zine com histórias aleatórias, temos histórias interessantes, pessoais, femininas e acima de tudo prevalece temáticas feministas, principalmente depois do terceiro zine para o último que é o quinto. Padrão de beleza, aborto, sexualidade e o direito sobre o corpo é apresentado com histórias bem construídas, apesar disso, algumas poucas histórias aleatórias sem pé nem cabeça estão presentes também nas edições do zine. Mas isso faz parte, o experimental existe no quadrinho para ousar, sem ele, não teríamos grandes obras neste meio. Descarto algumas autoras que me identifiquei com a história, e principalmente, porque gostei da arte e do roteiro em suas histórias: Samanta Floor com a história Dani, Cynthia B., com os lábios pendentes, Laura Lannes, estas três presentes entre nos primeiros dois volumes, já no volume três temos uma mudança no formato do Zine, este sendo deitado e com diversas tirinhas do tipo que estamos acostumados nos jornais, neste volume me identifico com diversos quadrinhos das autoras, entre eles Beatriz Lopes. Os outros dois restantes têm diversos quadrinhos bons, como a maneira do aborto ser abordado por Lovelove6, que também assina a capa do volume quatro dos zines, que em minha opinião, é a melhor capa, nesta mesma edição vale dar uma conferida nas histórias de Janaina Esmeraldo e Jessica Kianne.

Apesar de ter outras boas histórias, o zine também apresenta outras sem sentido, o que faz cair um pouco a qualidade do mesmo, mas quanto isso não há muito o que fazer, a definição de Zine não é ser algo de qualidade, muito pelo contrário.

Apesar de elogiar bastante a parte artística do projeto, é necessário um puxão de orelha no pessoal da organização, pois houve um atraso imenso na entrega dos zines, para se ter uma ideia, esse projeto foi finalizado no dia quatorze de novembro do ano passado, mas só foi entregado depois de Março. Quando colaborei eu ainda trabalhava em uma empresa na qual saí, então nem mudei meu endereço de entrega, só pude pegar bem depois quando me avisaram na própria empresa que foi entregue. Quem foi buscar no evento do Rio de Janeiro, no bar hipsterzinho chamado Comuna, reclamou da falta de atenção com quem colaborou com o projeto, inclusive, que qualquer um que chegasse lá poderia conseguir o zine sem nem mostrar comprovante de pagamento, enfim, aparentemente o sucesso do projeto foi tanto que teve zines para dar e vender.

Interessante que agora temos mais dois projetos envolvendo mulheres e quadrinhos, o primeiro é a arrecadação para o primeiro encontro da Lady’s Comics, site dedicado ao quadrinho feito por mulheres pioneiro no Brasil nesse assunto. O link para colaborar é este aqui: http://www.catarse.me/pt/ladyscomics, o destaque fica para oficinas com Chiquinha, LoveLove6, entre diversos debates com quadrinistas que estão mudando essa maravilhosa arte no Brasil. Ah, o evento ocorrerá em Belo Horizonte.

Já o Mulheres nos quadrinhos é uma page do facebook que também está lançando agora dois livros com participação de mulheres artistas, o objetivo do projeto é chegar 15 mil reais, sendo que tem diversas autoras interessantes envolvidas, segue o link para o projeto: http://www.catarse.me/pt/mulheresnosquadrinhos.

Você pode ler outra opinião aqui.

 

Bolland Strips!

junho 27, 2014

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Brian Bolland é um artista incrível. Sem dúvidas, ele é um adicional aos quadrinhos.

Seus desenhos realistas foram um imenso sucesso, principalmente após a publicação de Batman, A Piada Mortal, minha história favorita do Homem-Morcego, aonde a insanidade do Coringa é levada a um patamar nunca visto nas histórias do personagem. Sua influencia é tanto, que as mudanças inseridas na história refletem até os dias de hoje, personagens que sofreram mudanças drásticas estão com essa mudança até os dias de hoje.

Apesar de sua exposição com a história, o autor produziu histórias focadas em revistas Inglesas, como Camelot 3000 e Juiz Dredd.

Não pretendo analisar todo seu trabalho, apenas fazer algumas observações sobre a publicação no Brasil, pela Editora Nemo de Bolland Strips! Um quadrinho de luxo que reúne histórias pessoais do autor, aonde além de desenhar também as escreve.

O artista quando escreve, tem uma tendência única a quebrar barreiras dos quadrinhos, a valorizar sua arte ou a fazer histórias mais simples, aonde consiga expressar o que pensa sobre determinado assunto.

Apesar de gostar muito da arte de Bolland, não simpatizei muito com as histórias contidas no álbum da Atriz e o Bispo, talvez por se tratar de poemas, não sei, isso é algo pessoal.

Já nas histórias do Mr. Mamoulian é aonde Bolland desenvolveu um personagem singular, único, cheio de referencias as coisas menos underground que o artista pudera pensar. Ele diz logo na introdução: “Alguém me disse que desenhar uma página de quadrinhos deveria ser tão fácil quanto escrever uma carta a um amigo. Então foi o que fiz”.  Com uma história linear, que quebra diversas vezes a lógica da história, apresentando, por exemplo, um “verdadeiro autor” das tirinhas, como personagem, ou desviando o foco da história para apresentar observações do artista, como as geniais histórias de uma página “Tenha um bom dia” e a “Amarrada” nos faz refletir sobre nosso papel no mundo e sobre algemas invisíveis que criamos para nós mesmos, o interessante é que em ambas as histórias o personagem aparece lendo o texto em uma revista ou livro. Além disso, é apresentado diversos conceitos filosóficos ou sociais, além de personagens feministas, espiões, robôs alienígenas e um misterioso elefante, segue as duas páginas em inglês com a tradução embaixo:

Tenha um bom dia.

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“Na virada do Século, no Turguestão Chinês, alguém que visitasse a cidade de Urumqi poderia ver em uso uma jaula inteligentemente criada, chamada de Kapas.

A vitima dessa forma de execução particularmente cruel era encarcerada dentro da jaula com a cabeça para fora, presa firmemente pelo pescoço. Seus pés apoiados em uma tábua de madeira.

A cada dia a madeira era abaixada um pouco para que a vítima fosse tendo que ficar na ponta dos pés para aliviar a pressão do pescoço. No sétimo ou oitavo dia, não conseguindo mais alcançar a tábua, o pescoço da vítima se quebrava.

As Kapas eram sempre cercadas de vendedores cujo lucro era aumentado pelos que vinham ouvir os choramingos e a agonia prolongada do homem condenado.”

“Na América, durante a escravatura, o homem podia ser punido tendo que usar um colar de espinhos de metal. Dos oitos espinhos saindo do colar, quatro eram apontados para baixo e quatro para cima, cada um curvado em direção ao seu usuário e a centimetros de seu corpo.

Enquanto usava aquilo, a vítima não conseguia dormir e, exausta como ficava, não conseguia relaxar a cabeça, ou os espinhos entrariam no rosto, peito e etc.

Tenha um bom dia”.

 

Amarrada

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“Esta mulher foi amarrada.

Foi Amarrada pelo famoso artista surrealista Man Ray (1890-1976). Presumivelmente, ela concordou em ser amarrada.

Talvez tenha sido enganada para pensar que isso é ARTE. Quem sabe?

Ela desistiu de sua liberdade de movimento. Desistiu de sua dignidade. Desistiu da responsabilidade por si mesma. Desistiu de tudo.

Nós dois, por outro lado, não estamos amarrados nus com tiras de couro. Somos livres. Para nos movermos o quanto quisermos com dignidade e responsabilidade.

Livres para acordar todas as manhãs às 7H com o som do despertador. Livres para nos espremermos no metrô embaixo da terra, juntos de milhares de pessoas livres para fazer o mesmo.

Livres para deixar outras pessoas tomarem nossas decisões por nós. Livres para nos fecharmos em caixas de concreto. Livres para restringir qualquer atividade que comprometa nossa dignidade ou ameace a ordem que une a sociedade.

Liberdade é uma noção aterrorizante. O que realmente queremos é sermos liberados de tomar decisões. Resgatados de debaixo do peso de nossa própria dignidade. Queremos nos prender à roda da ordem social. Prender os pés e as mãos. Nus. Livres de responsabilidade e de dignidade. Livres até mesmo de ter que se mexer. Realmente livres!

-Quer que eu o amarre?

Quê? Deus, não!

-Você quer me amarrar?

Não, claro que não! Estou tentando mostrar o objetivo filosófico disso.

-Então porque esta me mostrando essa merda sexista e pornográfica?

-…você não está entendendo a questão, de propósito…”

 

O horror de Dunwich.

junho 10, 2014

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A editora Hedra tem feito um belo trabalho ao publicar livros do Lovecraft no Brasil, além de autores Russos como Dostoievski. Seus livros estão com ótimas traduções e acabamentos melhores ainda. É uma boa pedida para quem não pode gastar com livros imensos, pois boa parte de sua produção é voltada para livros de bolso, sendo de uma qualidade superior aos da LPM e Martin Claret da vida, que enquanto um peca em tradução o outro que peca tanto em tradução quanto na qualidade final do produto.

Há algum tempo escrevi aqui, que adquiri diversos livros com contos e novelas do Lovecraft diretamente do site da Hedra, que aliás sempre da descontos (confira o site da editora aqui ) Esses dos quais eu devorei em semanas, prometi que escreveria mais sobre esses livros, e depois do Chamado de Chthullu é a vez de o Horror de Dunwich, talvez um dos meus favoritos do autor até agora (se prepara que eu devo dizer isso sobre todos os livros).

Lovecraft é o mestre em histórias diretas, pequenas, sem frescura e com descrições precisas quando necessário. Tudo que o autor produziu não poderia ter o mesmo impacto se fosse escrito de outra maneira. A síntese de sua obra são todos seus contos e suas novelas. Mesmo uma novela com pouco mais de cem páginas, o Horror de Dunwich é de um suspense e terror impressionante.

Diferente do que estamos habituados em suas histórias, dessa vez a narrativa não parte de um dos personagens centrais da trama, e sim de um espectador que talvez tenha morado na pequena cidade de Dunwich.

Quando afirmamos que Lovecraft inspirou diversos autores, como Neil Gaiman, Stephen King e Alan Moore, é em livros como este que este fato fica claro. No inicio da narrativa, com toda a descrição da pequena vila de Dunwich que acompanhamos pelas palavras não fica difícil de imaginar cena após cena, como o casal perdido na estrada, que cruza as figuras bizarras e a paisagem decadente da cidade, o que foi vivenciado nela apenas contribui para que nossa curiosidade fique ainda maior, e logo após toda a descrição chega a hora de partir para a história em si.

Nela, vivenciamos o nascimento de Wilbur Whateley, filho de Lavinia Whateley, da qual ninguem conhece o pai da criança. Com feições de bode e pele morena, chama a atenção de todo o vilarejo por seu desenvolvimento fora do comum, crescendo e envelhecendo antes dos garotos que tem sua mesma idade, o vilarejo morre de medo da família Whateley, pois eles são conhecidos por fazer rituais estranhos no alto da colina, aonde diversos barulhos podem ser escutados no meio da escuridão, a todos deste pequeno Vilarejo chama a atenção o ódio mortal que os cães sentem por Wilbur.

Logo fica claro o envolvimento da família Whateley com o oculto, pois além das diversas descrições dos acontecimentos estranhos que envolvem os Whateley há o fato do avô de Wilbur possuir diversos livros ocultistas, entre eles o famoso Necronomicon, que por sinal tem diversos trechos divulgados nesta novela de Lovecraft, tornando esta obra peça fundamental para o entendimento da mitologia do autor.

A partir daí, acompanhamos a busca do jovem Wilbur por uma versão completa de Necronomicon, pois a do avô é incompleta, enquanto isso, eventos estranhos começam a ocorrer na pequena cidade de Dunwich, acompanhamos o ponto de vista de diversos moradores do vilarejo, e vale o destaque no trabalho feito por Lovecraft na linguagem local dos moradores – e consequentemente na tradução de Guilherme da Silva Braga que conseguiu adaptar para o português a linguagem caipira deles.

Destaque também para o trabalho de ambiente que Lovecraft faz, ao inserir pássaros que avisam com terríveis barulhos quando alguém morre na cidade, os barulhos afetam psicologicamente os moradores da cidade, e a descrição destes barulhos afetam os leitores com o terror psicológico criado pelo escritor. Também não tem como evitar as descrições detalhadas que Lovecraft faz das criaturas no livro, apesar de bizarras, ele o faz de uma maneira tão clara e fora da monotonia que imaginar as cenas se torna um exercício fácil, que entretêm o leitor e atiça a curiosidade para ver qual será a próxima cena, criatura ou detalhe que será apresentado nas próximas páginas.

O livro ainda acompanha quatro textos, eles são duas cartas do autor, o texto “O Sabujo” e uma breve história do Necronomicon. Com isso, esse livro se torna importante para o entendimento da mitologia de Cthullu e os outros deuses criados pelo escritor, tudo isso em apenas 106 paginas!

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O chamado de Tchutchuco.

abril 10, 2014

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Nesse ano de 2014 resolvi fazer algo diferente, como sempre esqueço quais livros vou lendo a cada ano, vou postar comentários e breves criticas sobre eles aqui, fiz isso esse ano com “O Lobo do Mar”. O próximo é uma série de livros do Lovecraft que saiu pela editora Hedra aqui no Brasil, no Carnaval a editora deu 50% com frete grátis em seus produtos, com uma qualidade selecionada de obras, papel off-set e uma tradução supimpa de Guilherme da Silva Braga, comprei 04 livros do Lovecraft, dentre eles o Chamado de Cthulu, O horror de Dunwich, Um Sussurro nas Trevas e a sombra de Innsmouth, tudo por módicos 54 reais, mas já aviso que fora O horror de Dunwich, os outros livros são pocket.

Dentre eles terminei de ler o Chamado de Cthulu e o Horror de Dunwich. Hoje vou falar da edição do chamado de Cthulu, primeiro que li.

Já conhecia o autor de nome há vários anos, mas só li uma obra dele quando um amigo meu (valeu Claudião) me emprestou “Nas montanhas da Loucura”, da editora Hedra, livro que li em coisa de uma semana, tamanho o suspense que o autor soube criar para o desfecho e do mundo que imaginou descrito em linha após linha, na época, nas montanhas da loucura estava em alta por causa de Prometheus e toda a polemica envolvendo o Guilhermo Del Toro, que queria filmar o livro, mas desistiu porque muito do que ele queria fazer já estava feito em Prometheus. Para quem ler o Chamado de Cthulu, de qualquer maneira, encontrará diversas referencias a Lovecraft em praticamente todos os outros filmes de Guilhermo, de Hellboy (na qual o autor, Mike Mignola também é um grande fã), até Circulo de Fogo, com monstros imensos que estão vindo do fundo do mar. Lovecraft puro.

Vale ressaltar que na vida, Lovecraft publicou apenas um livro, o resto eram contos publicados em revistas, como a Weird Tales, na qual colaborou boa parte de sua vida adulta e foi responsável por disseminar os mitos de Cthulu e toda a “pseudomitologia” envolvendo o Necronomicon e os Deuses Ancestrais.

Com isso em vista, fica interessante observar os diversos materiais extras contidos nos livros da editora Hedra, no intuito de deixar a publicação com um recheio maior para ter mais páginas, afinal só o Chamado de Cthulu tem apenas umas 50 páginas. Cartas de Lovecraft e contos menores que ajudam a preparar  a pessoa para entender melhor o que seria a mitologia envolvendo o Chamado de Cthulu, principal historia do livro, introduções e notas explicativas ajudam o leitor a se situar e a mastigar to o complexo universo criado por H. P. Lovecraft.

Mas se pegarmos para analisar há referências encontradas em diversos contos do escritor, em série temos, por exemplo, True Detective, que falei em meu último post. A ideia de Seitas Religiosas era algo que Lovecraft escreveu várias vezes, principalmente nos contos anteriores a neste livro, como o “Assombro nas Trevas” ou o “Modelo de Pickman”. O tão citado “Yellow King” inspirou Lovecraft, pois se tratava de um livro com dez contos de terror que estavam sutilmente interligados, assim como os contos de Lovecraft.

O conto “A música de Erich Zann” é puro Horror Cósmico, gênero que Lovecraft era expoente máximo e é uma espécie de síntese de tudo que esse gênero representa: o homem, sozinho no universo, sendo engolido pela escuridão infinita, o homem como ser insignificante perante aos seres ancestrais.

Já Dagon, temos a narrativa de um fugitivo na primeira guerra mundial, que encontra um antigo Deus, Dagon é inspirado em um deus filisteu.

Mas nem tudo são flores na obra de Lovecraft, apesar de ótimo narrador, apesar de conseguir exprimir o terror psicológico em seus personagens como quase ninguém fazia em sua época com reações convincentes de seus personagens diante das monstruosidades que encontravam em seu caminho, confesso que às vezes exageradas. Mas alguma coisa me perturba em suas narrações, de primeira ou terceira pessoa. Seus personagens são sempre cultos ao extremo, de todos os livros que li dele até agora, nenhum tem um personagem principal diferente dessa extrema. Ou são antropólogos ou folcloristas que estudam religiões e povos antigos.

O próprio Lovecraft era um aficionado por literatura, grande leitor, não se sentia aos pés de Poe ou outros escritores que em vida não produziram tanto quanto ele, mas talvez esse seja seu maior problema, Lovecraft exclui totalmente outros tipos de personagens, mulheres, quando existem, são omissas e só servem de personagem para seus textos. Povos “mulatos ou negros” aonde predominam religiões africanas, como citado no chamado de Cthulu, são pessoas anônimas sem nomes ou participações, ignorantes sem percepção que adoram deuses sanguinários e destrutivos, seria tudo bacana se não fosse essas pequenas coisas, que como já escrevi na revista rever no texto sobre Frank Miller, me deixa com o pé atrás com esse tipo de autor. Se o Lovecraft fosse tão inteligente a ponto de estudar sobre mitologias antigas, árabes, cosmologia e tudo mais como dizia, como ele podia ser em contrapartida um racista convicto? Não digo isso por apenas achar que ele era Racista, mas sim porque no livro “Sombra de Insmouth”, há vários trechos de suas correspondências, aonde dizia odiar negros, judeus, asiáticos e até canadenses!Adorava o livro “Minha Luta”, do Hitler. Ficamos então com uma contrapartida imensa do intelecto com uma falta de bom-senso por parte do escritor.

Vale observar a forma direta e crua como Guilherme da Silva Braga, que tem feito um trabalho impar nas traduções e edições das histórias de Lovecraft, expõe esses pensamentos do escritor.

Tendo em vista tudo isso em vista, vale ressaltar que em o Chamado de Cthulu não há nenhuma declaração infame do tipo, apenas por se tratar de contos curtos, tem protagonistas sem espaço para coadjuvantes de outras etnias/sexo. É tudo bem direto, com relatos em primeira pessoa bem explicativos dos protagonistas geralmente em um curto período de tempo.

Finalmente, vale a pena à leitura, apesar dessa critica quanto ao comportamento do autor, porém em “O chamado de Cthulu e outros contos” é composto por histórias curtas e ótimas, que despertam o desespero no leitor e é algo fundamental para entender escritores como Stephen King, Alan Moore e cineastas do cacife de Ridley Scott e Guilhermo Del Toro.