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A aldeia de Stepántchikovo e seus habitantes

novembro 6, 2014

 

Quem acompanha meu blog, sabe que um dos meus escritores favoritos é o Dostoiévski, alguns de meus textos favoritos foram sobre suas obras ou sobre a vida e comportamento do escritor. O último texto, por exemplo, era sobre uma briga épica da literatura mundial, protagonizada por Fiodor e Turgueniev, comparando o viralatismo de Turgueniev com o complexo de vira latas que muitos de nós brasileiros sentimos em relação ao nosso país. Você pode ler o texto aqui.

Um texto aonde linko todos os outros com criticas sobre os livros do autor pode ser encontrado aqui.

Fiz uma promessa no inicio do ano de comentar e criticar quadrinhos e livros que li, infelizmente, não consegui ler tanto quanto queria, quanto mais parar para escrever sobre estes livros e quadrinhos.

Ganhei a A aldeia de Stepántchikovo e seus habitantes tem algum tempo da minha esposa, porém além de demorar para começar a ler é complicado escrever sobre um livro do Dostoiévski, principalmente quando eu tenho o costume de sempre ler sobre o escritor e sobre suas obras, e o pior de tudo é quando tenho obras biográficas do autor, entre elas a rica biografia do Joseph Frank, que além de falar sobre a vida do Dostô, ainda aborda a politica da época  e critica os livros do autor. Para se ter uma ideia, apenas para explicar a discussão entre Turguêniev e Dostoiévski, o autor gastou dezenas e dezenas de páginas explicando os motivos, criticando livros do Turguê, comparando criticas de outros autores com as do próprio Dostô, além de traçar uma biografia deste rival do Dostoiévski.

Pois bem, primeiro, assim como quase todos os outros livros que escrevi sobre Dostô, a Aldeia (vamos abreviar aqui porque o nome é longo), nesta versão que eu li, é da Editora 34. A editora tem feito um ótimo trabalho em publicar textos russos de autores consagrados como este escritor que falo sobre, também sobre Tolstoi, Pushkin, Gogól, entre outros, assim como novos autores, por exemplo, da “Nova Antologia do conto Russo”, aonde traz diversos contos de autores consagrados na literatura Russa, como novos autores, até a data de 1998.

Todos os livros que li da editora 34 tem excelentes trabalhos de ilustradores e artistas plásticos, trabalhos com xilogravura ou até gravura, e no caso de A Aldeia não é diferente, todos que eu li, envolviam ilustrações de excelentes artistas brasileiros ou naturalizados no Brasil, alguns que fizeram o trabalho inspirado em passagens de livros do Dostô, ano passado ou retrasado, visitei na caixa cultural uma exposição de Oswaldo Goeldi, aonde estava exposto as séries de desenhos, gravuras, xilogravuras, etc, do autor, sobre livros do Dostoievski, para conferir as obras do mesmo, acesse aqui.

Nesta edição de a Aldeia, o ilustrador é um veterano, Darel Valença Lins, excelente artista nascido em 1924, confiram a página do Wikipedia dele aqui.

Gostei muito da tradução de Lucas Simone, que também organizou a edição da Nova Antologia do conto Russo, formado em história na USP, é professor da lingua Russa. Jovem, é um folego para os tradutores de livros Russos, tendo em vista que pelas outras edições da Editora 34, temos os excelentes e veteranos tradutores Paulo Bezerra (74 anos), e Boris Schnaiderman (97 anos), além de outros tradutores. Com toda certeza eu não teria começado a ler Dostoiévski sem a maneira brilhante em que eles conseguem expressar e traduzir as expressões e o estilo de narrativa deste autor, para se ter uma ideia, mesmo vários dos livros antigos, antes da Editora 34 começar a publicar autores Russos no mercado, traduziam textos Russos do Inglês, ou seja, era a tradução da tradução.

Enfim, finalmente li a Aldeia, e a primeira coisa que tenho de falar é: gostei muito do livro.

Escrito em 1859, é conhecido como um dos romances siberianos de Dostoiévski, porque foi concebido quando ele ainda era exilado na Sibéria, logo depois que saiu da prisão, para quem não sabe Dostô foi preso e além de ficar um tempo na cadeia depois foi obrigado a trabalhar para o exercito Russo, legalmente ele era proibido de voltar a Rússia, isso aconteceu depois de muito esforço que ele fez, como cartas para generais e para o próprio Czar da época. O fato é que ele foi impedido de escrever no tempo em que ficou preso, e quando viu que contemporâneos que foram presos pelo mesmo motivo estavam publicando textos em revistas e livros, decidiu voltar a ativa.

Pediu para seu irmão que estava na Rússia publicar um texto que ele escreveu quando ainda era preso politico antes de seu julgamento. Sem assinatura do autor, que temia ainda a censura e ser repreendido por escrever, além de ser espionado pela polícia Russa, o texto passou batido na sociedade. Quando publicou de seu primeiro livro, na juventude, Fiodor fez muito sucesso, e ele esperava o mesmo sucesso com o seu retorno literário, porém, as perspectivas eram outras, ele era jovem quando publicou seu primeiro romance, agora era casado, recebia um salário muito baixo, e precisava produzir algo as pressas, então é neste cenário que ele publica o Sonho do Tio, livro que teve uma reação muito inexpressiva na entre os leitores e no qual ninguém comentou. Porém assim ele finalmente recebia um salário digno, com isso trabalhou com maior calma e intensa dedicação, em meio a diversas crises de epilepsia conseguiu parir a Aldeia. E é engraçado que Dostô realmente tinha grandes perspectivas com esse romance, pois ele achava que seria levantado aos céus novamente como com o seu primeiro livr, porém Belinski, principal critico responsável por dar aquele hype no inicio de carreira do autor estava morto, e antes de morrer fez questão de anunciar que havia se enganado quanto o talento do escritor.

A Aldeia teve muita dificuldade para ser publicada, além de ter editores que enrolaram para decidir se iriam colocar em suas revistas ou não, um deles que havia dado um adiantamento para o escritor pediu o dinheiro de volta, pois não gostou do resultado, depois de alguns meses ele finalmente foi publicado em uma revista, e a critica foi muito forte quanto a história, pois além de criticar contemporâneos que eram excelentes escritores, além de satirizar Gogól na figura de Formá Formitch, ainda foi criticado por seus principais aliados, o setor progressista que tentava libertar os servos, para se ter uma ideia, Formá Formitch que era uma espécie de bufão (termo que pode ser comparado a bobo da corte), tentava ensinar no livro conceitos de literatura, astronomia e ciências aos servos. Da maneira que fica exposto, pode abrir uma margem de erro de interpretação ao setor mais progressista da sociedade Russa que Dostoievski estava satirizando a burrice dos Servos, quando estava mais para satirizar o tipo ridículo do intelectual na época, que vemos até nos dias de hoje, aonde tenta ensinar algo para pessoas que não tem o minimo interesse.

Enfim, apesar de não ser o narrador, Formá é o principal personagem do livro, isso pode não ficar muito exposto, mas a maneira que é criado o personagem, de forma brilhante, fez com que “Formá” se torna-se uma designação para bufão, bobo da corte, palhaço, entre outras, na Rússia e é utilizado até nos dias de hoje para designar esse tipo  de gente, mas para entender melhor, deixe-me explicar:

A primeira parte do livro, demasiada extensa, contém o narrador, sobrinho de um Coronel que é dono da Aldeia, contando que recebeu uma carta de seu tio, ele narra todo o drama psicológico de seu tio, da mãe de seu tio, do ex-marido de sua tia avó, contando basicamente que seu tio era um ser que não conseguia colocar a culpa nos outros, que era ignorante em temas de ciência e cultura, que qualquer um poderia facilmente subir nas costas dele. Quanto a sua tia-vó, logo de inicio é mostrado o desprezo que o narrador sente pela velha, e não é por exagero: casada com um General, que no inicio do livro já era falecido, a velha se muda para a casa do tio da narrador, levando todos seus animais, criadas, etc. Tirana, egoísta, exagerada, vê em Formá Formitch uma espécie de amor platônico, Formá, era criado do General, e sofria na mão do velho, como sofreu a vida toda. Acadêmico e culto, além de ter publicado textos, nunca conseguiu dinheiro por não ter origem nobre, acaba se tornando uma espécie de monge para a Generala quando o velho morre. Fazia previsões do futuro, dava verdadeiros exemplos de sua cultura, entre outros, consegue se instalar na casa do Coronel de maneira na qual, acaba subindo nas costas dele.

Nesta carta o narrador descobre o desespero de seu tio, que está tentando ludibriar que seu sobrinho se case com a governanta de sua casa, o sobrinho detecta que tem algo de estranho no texto e no caminho para a Aldeia, conforme se encontra com pessoas que vinham de lá, aos poucos vai descobrindo as histórias de Formá.

O livro se torna muito interessante e encantador quando o narrador chega na Aldeia e se depara com as figuras pitorescas. Vale observar que nas quase 400 páginas, Dostoiévski construiu personagens dinâmicos, únicos até então na literatura. E fica evidente sua qualidade na narrativa quando consegue desenvolver em um curto espaço de tempo todas as ações e toda a humanidade de seus personagens, e essa característica é inegável pois estará em outros de seus maiores romances.

Quanto as criticas que ele recebeu, vale observar que ele estava fora do cenário social da Rússia, ele apareceu com um livro cômico quando a Rússia estava lidando com questões séries como a liberação dos servos, mesmo com o livro considerado uma comédia, dá para perceber nos diálogos e nas histórias dos personagens um pouco do sufoco que o autor passava, além das crises epiléticas e da depressão profunda que ele sofria. Não foi bem recebido pela critica, principalmente porque alguns dos escritores e donos de publicações da época foram parodiados no livro.

Enfim, desta vez não tive aquela sensação que descrevi antes, que a cada livro deste autor que leio tenho a impressão de ser o melhor livro que li na vida, mas recomendo a todos que querem conhecer os dois lados do autor (antes de ser preso, e depois de ser preso), e acompanhar com leituras como Pobre Gente e O Idiota, e perceber como prisões, crises de epilepsia, mortes de entes queridos, dívidas excessivas, podem ajudar a moldar um dos maiores escritores de todos os tempos.

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Um exemplo de como o vira latismo não é algo exclusivo dos brasileiros.

junho 17, 2014

Dostoyevsky_in_prisonComplexo de vira-lata é a expressão criada por Nelson Rodrigues, utilizada para descrever o pessoal que inferioriza nosso país e que sonha em ir até Miami comprar Iphone e Playstation quatro. Mas o que temos de saber é que esse complexo não é algo restrito aos brasileiros, como podemos ver em uma matéria recente no site UOL,  onde gringos que estão no país por causa da copa apontam que nossos defeitos não são únicos, existe tanto transito aqui quanto em Londres ou em Tóquio, por exemplo.

Em 1867, Turgueniev publicava o livro “Fumaças”, aonde criticava fortemente seu país de origem, a Rússia. Segundo Turgeniev, os Russos não tinham nada de original, como cita no livro por meio do protagonista “o samovar, os sapatos de entrecasca de madeira, o bridão e o chicote – são esses nossos produtos mais famosos – não foram inventados por nós”, há também outra citação, ainda mais polemica e na qual Turgueniev diz ser a frase que resume seu livro, quando o personagem principal diz que “se a Rússia desaparecesse de repente da face da terra, com tudo que ela criou, não tiraria do lugar uma única unha do planeta terra”.  Esse tipo de descrição era muito comum do Turgeniev. Na juventude, quando era amigo de Dostoievski, disse que o autor era a “espinha no nariz da literatura Russa”, isso porque ambos haviam ficado amigos por causa do circulo de literatura, arte e politica que se encontravam na casa do critico Belinski. Tudo porque Dostoievski, que viera em sua época foi um dos poucos escritores provenientes de família pobre, conseguiu alavancar um sucesso tremendo com seu romance de estreia, “Pobre Gente”, que foi muito bem criticado por Belinski, uma espécie de guru literário da época.

Turgueniev

Turgueniev

O tempo passou, e a amizade dos dois voltou a ficar forte, principalmente depois que Fiodor passou anos na Sibéria preso e voltou à Rússia, aonde mesmo sem ter muito dinheiro fundou com seu irmão à revista literária “O tempo”. Dostoievski pediu então uma colaboração de Turgeniev que atendeu o seu chamado, infelizmente, a revista O tempo foi fechada pela censura imposta pelo Czar.

Dostoievski então guardou o texto de Turgeniev e meses depois o lançou em uma revista chamada “Época”.

O tempo passou e Dostoievski perdeu sua esposa e seu irmão, o que deixou diversas despesas para o escritor, pois além de sustentar o filho de sua esposa também sustentou a família de seu irmão. Com as dividas da revista e tendo que fazer o trabalho editorial sozinho, não restou alternativa senão fechar a revista.

Assim, seu único método de sustento era escrever. E Dostoievski escreveu. Com diversos problemas econômicos, se esforçou para entregar “O Jogador” para um editor de livros, o prazo quando começou a escrever era de um mês. Ao mesmo tempo, escreveu “Crime e Castigo”. Com o tempo correndo, foi necessário contratar uma estenografa, foi ai que conheceu Anna, sua futura esposa.

Quando fugiu da Rússia devido à quantidade cada vez maior de credores e dividas que estava obrigado a pagar, viajou pela Europa, em países como Itália e Alemanha.

Foi neste cenário, que reencontrou Turgueniev em Baden Baden, o autor de Pais e Filhos estava recebendo diversas criticas negativas na Rússia, inclusive de amigos próximos, por ter escrito A Fumaça e também pelo romance Pais e Filhos, e Dostoievski estava mais miserável do que nunca, pois contraiu um vicio em jogos, gastando assim todo dinheiro que ganhava e penhorando bens de sua família, sua esposa estava grávida e o casal era tão pobre neste período que conseguiram apenas alugar um apartamento pequeno que ficava em cima de um ferreiro que começava a trabalhar às cinco horas da manhã.

Após ter sido avistado por Turgueniev, Dostoievski decidiu visitar o amigo, até porque ele devia ao escritor 50 rublos e queria negociar o pagamento.

Em contrapartida ao complexo de vira lata que sofria Turgueniev, Dostoievski amava e muito a Rússia, o futuro autor de Irmãos Karamazov odiava ter de passar tanto tempo longe do país. Em seu tempo na prisão amadureceu o sentimento de patriotismo, e nesta época Dostoievski já previa que a Rússia iria dominar o mundo, pretendia voltar o quanto antes para seu país natal, pois não queria criar seu futuro filho “longe dos costumes russos”.

Deste encontro entre os dois, saíram duas versões. A primeira contada no diário de Ana, na mesma noite em que Dostoievski voltou de seu encontro com Turgueniev, e a segunda versão na qual Dostoievski este encontro ao seu amigo e poeta Apolon Maikov.

No diário de Ana, há uma versão muito mais amena que a da carta destinada a Maikov. Em seu diário, Ana conta que o encontro entre os dois escritores teve um resultado muito mais ameno que o normal, talvez Dostoievski tenha sido mais leve ao descrever os fatos. Uma alternativa levantada pelo biografo de Dostoievski, Joseph Frank, seria a de que essa declaração teria a ver com a situação econômica desesperadora que vivia o casal.  Outra observação da mesma era a de que Dostoievski, ao chegar com algum dinheiro ganhado da roleta, seria importante, pois não seria necessário procurar Turgeniev para pedir emprestado algum dinheiro, segundo Joseph Frank, essa observação seria importante, pois mostra que Ana ainda tinha esperanças para a possibilidade de apelar para Turgueniev caso o casal ficasse sem dinheiro.

Mas como briga com final ameno não tem graça, vamos à versão escrita por Dostoievski, portanto feito pelos punhos de quem presenciou os fatos, na qual o encontro dos dois escritores terminou de maneira dura e amarga.

Mais detalhada que o diário de Ana, a carta de Dostoievski começa com “Vou lhe dizer com franqueza: mesmo antes disso [a visita obrigatória] eu não gostava do homem pessoalmente”. O sentimento envolvendo Turgueniev se agravou, por não conseguir pagar o empréstimo que tomou, para piorar, Dostoievski se queixa do comprimento aristocrático do poeta, dizendo que ele tem “ares horríveis de um general”.

Para se ter uma ideia, o desgosto de Dostoievski pelos métodos aristocráticos de Turgueniev cresceu de tal maneira, que o escritor criou um personagem no livro “Os Demônios”, chamado Karmazinov, aonde a descrição batia com os métodos de Ivan.

Ainda no inicio, Dostoievski diz que “o livro fumaça me irritava”.

Apesar de querer evitar o assunto, Turgueniev empurrou a conversa para falar sobre A fumaça, segundo o diário de Ana, “falou o tempo todo de seu novo romance, Fiodór nem sequer chegou a mencioná-lo”, já no meio da conversa, Turgueniev diz que “a principal tese do livro, estava na fala do personagem principal Potúguin ‘se a Rússia desaparecesse, não havia qualquer perda ou agitação na humanidade”. Apontando logo em seguida a reação negativa que seu livro despertou.

Dostoievski, diz na carta a Maikov, repetindo sua primeira linha “Eu não sabia, que ele fora atacado e em um clube em Moscou, acho, as pessoas estavam coletando assinaturas para protestas contra o seu Fumaça. Confesso a você que eu nunca teria imaginado que alguém pudesse expor suas feridas à sua vaidade com tanta ingenuidade e inabilidade como faz Turgueniev”.

Após expor as criticas negativas de seu livro na Rússia, a conversa foi para o lado dos debates culturais envolvendo os ocidentalistas e os esváfilos, segundo Dostoievski, em sua carta a Maikov: “Ele criticou a Rússia e os russos de forma monstruosa, horrível…” Ele cita logo depois “Turgueniev nos disse que devamos nos arrastar diante dos alemães e que todas as tentativas de russidade e de independência são uma bestialidade e uma estupidez”, logo após, observou que “estava escrevendo um longo artigo contra os russófilos e os eslavófilos” foi quando Dostoievski fez a réplica mais citada entre esta discussão entre os dois, o escritor de crime e castigo disse: “Aconselhei-o, por conveniência a mandar vir um telescópio de Paris. ‘Para quê? ’ perguntou. ‘É longe daqui’, respondi. ‘Focalize seu telescópio na Rússia e nos examine, porque de outra maneira é difícil nos entender’”. Com essa resposta, Dostoievski expos que o exilio auto-imposto de Turgueniev o afastou da realidade russa e na qual seu talento havia se perdido com esse afastamento.  Com o sarcasmo de Dostoievski, Turgueniev ficou zangado, por outro lado, Dostoievski tentou diminuir o stress da conversa de ambos, dizendo “Mas eu realmente não esperava toda essa critica a você e ao fracasso de fumaça, o irritasse tanto; por Deus, não vale a pena, esqueça tudo isso”.  Em resposta, teve a fala: “mas eu não estou irritado de jeito nenhum. O que você quer dizer?”, fez com que Dostoievski mudasse de assunto, aonde finalmente pegou o chapéu para sair, mas antes de partir, não se conteve, e “por algum motivo, absolutamente sem intenção, disse o que em três meses eu vinha acumulado em minha alma sobre os alemães”.  No diário de sua esposa, Ana, sabemos que o escritor de Os Demônios, vinha acumulando um ódio com os modos dos alemães sem poder descarregar a ninguém, no final, explodiu a uma crítica aos alemães os chamando de “patifes, escroques, muito piores e desonestos do que nós (os russos)”. Comentou, aproveitando as questões socioculturais que debatiam: “Você está aqui falando da civilização, pois bem, o que a civilização fez para os alemães e como eles podem vangloriar-se de ser muito superiores a nós?”, as palavras de Dostoievski fez com que Turgueniev ficasse pálido, na qual disse: “Falando assim você me ofende pessoalmente. Você sabia que eu me estabeleci aqui permanentemente, que me considero um alemão, e não um russo, e tenho orgulho disso!” Assim, Dostoievski disse que embora tenha lido a fumaça, não espera que Turgieniev dissesse isso, assim, se desculpou e saiu de casa. No dia seguinte, apesar de ter sido avistado no dia seguinte pelo escritor, recebeu um cartão do mesmo.

A descrição dessa discussão envolvendo estes dois escritores, repercutiu o mundo da literatura Russa, por envolver dois dos maiores escritores de todos os tempos, ainda hoje, se torna atual, reflete em muito o complexo de vira-lata, pois os sentimentos, o argumento de Turgueniev se encaixa perfeitamente aos dias atuais, da mesma maneira em que Dostoievski se tornou um patriota intenso pela Rússia, escrevendo cartas ao Czar, dizendo o quanto amava a pátria, de dois ex-conspiradores de esquerda, se tornaram no meio de sua vida em bonachões defendendo ideias fúteis, e a isso meus amigos, não existe maior arrependimento.